O Tarot Egípcio e o Ocultismo


A teoria de que o Tarot teve origem no Egito foi levantada e defendida por muitos ocultistas e ordens iniciáticas importantes, como Eliphas Levi, Arthur Edward Waite e Aleister Crowley, que pertenciam à Golden Dawn (ordem hermética do “amanhecer dourado”), uma importante ordem iniciática fundada no século XIX. Os ocultistas defendem essa teoria baseados em detalhados e aprofundados estudos e pesquisas que realiram desde o século XVIII. A seguir temos alguns exemplos dos mais significativos ocultistas e suas teorias, segundo pesquisas de Constantino k. Riemma.


O francês Antoine Court de Gebelin (1725-1784) foi um pastor da igreja reformada, arqueólogo e ocultista, além de um apaixonado estudioso de mitologia antiga. Foi o primeiro a lanças a teoria da origem egípcia do Tarot, em seu livro: ”Le Monde Primitif Analysé et Comparé Aveu Le Monde Moderne”, publicado em 1775.


Em suas pesquisas ele sugeriu que o Tarot remontava as tradições místicas do Egito Antigo. Defendia a tese que o Tarot era originário do conhecimento secreto dos mistérios do Antigo Egito e que os 22 arcanos maiores estavam relacionados com os símbolos contidos no Livro de Thoth, senso que esses símbolos eram derivados das imagens iniciáticas dos sacerdotes egípcios, cujas figuras forma pintadas em duas fileiras nas paredes das galerias subterrâneas da grande pirâmide. Acreditava que os 22 arcanos maiores representavam os líderes temporais e espirituais da antiga sociedade egípcia, e que os 56 arcanos menores eram divididos em 4 naipes referentes às 4 classes da sociedade do Antigo Egito. Tanto os reis como a nobreza e os militares ostentavam a espada (naipe de espadas); a taça simbolizava os sacerdotes (naipe de copas); paus eram os símbolos da classe dos agricultores (naipe de paus) e as moedas representavam os comerciantes (naipe de ouros).


Segundo Gebelin, o Tarot é um livro com as crenças mais puras do povo egípcio e suas cartas devem ser encaradas como um livro sobre religião, filosofia e sobre a história da criação do mundo. Ele também relacionou os 22 arcanos maiores com as 22 ltras hebraicas. Também demonstrou que o Tarot se baseava no número 7, sagrado para os egípcios, que sobre ele fundamentavam várias ciências. Cada naipe tem 14 cartas, que seria “ 2x7 “.


Gebelin considerava que a palavra “TAROT” era uma combinação de “TAR” (caminho, estrada) e “RO, ROS ou ROG” (rei ou real). Portanto, Tarot significa “estrada ou caminho real”, o que também provaria sua origem egípcia.


A partir da publicação de seus estudos e pesquisas, começaram a surgir baralhos desenhados com motivos egípcios, mas sem nenhum compromisso com a história do jogo, embora o próprio Gebelin usasse o baralho de Tarot clássico. Ele não inventou nenhum baralho egípcio, mas sim aprofundou estudos e pesquisas sobre seus símbolos e hieróglifos. Foi com que teve início a divulgação de textos e estudos que passaram a analisar o Tarot sob a ótica ocultista, atribuindo-lhe um sentido mais profundo e considerando-o como um meio de transmissão de conhecimentos esotéricos e espirituais, que vão muito além de seu uso como um baralho comum.


ETTEILLA


Jean Baptiste Alliette (1738-1791), mais conhecido como Etteilla, foi um franês que fabricava perucas e dava aulas de álgebra. Ele inverteu as letras de seu nome para torná-lo mais atraente para o exercício das práticas divinatórias. Ele se considerava um “mestre da cartomancia” e foi o primeiro homem ligado à leitura da sorte através das cartas. Foi um dos discípulos de Gebelin e dizia ser aluno do Conde de Saint Germain, um mago alquimista que teria mais de 2000 anos e o descobridor do elixir da longa vida.


Etteila estava sempre atento as novidades ao seu redor, e pouco tempo depois da publicação da obra de Gebelin, ele lançou o seu “Grande Etteilla” ou “Livro de Thoth”, endossando a origem egípcia do Tarot e afirmando que o baralho original havia sido escrito em folhas de ouro num templo de Memphis.


Em 1778 fundo a “Sociedade de Intérpretes do Livro de Thoth”, a primeira associação dedicada à leitura de cartas. Sua intenção era revelar “a chave dos 78 hieróglifos que estão no Livro de Thoth, obra de 17 magos, descendentes de Mercúrio-Thot”.


Ele foi o primeiro cartomante homem profissional de renome. Tinha o dom da palavra e conhecimentos gerais dos símbolos e da Cabala. Escreveu vários livros e desenhou diversos Tarots com um significado mais profundo, mudando o desenho dos arcanos e a ordem das cartas, alegando assim restaurar o verdadeiro e antigo simbolismo das cartas.


Sua bem sucedida popularização sobre a origem egípcia do Tarot reverteu a favor de Gebelin, que até hoje está intimamente associado ao tema egípcio do Tarot. Etteilla era amigo de Mdlle Lenormand, a criadora do “Petit Lenormand” (baralho cigano), sua discípula e segundo maior nome mundial da cartomancia. Ele e sua obra também influenciaram fortemente o trabalho de Papus com o Tarot.


ELIPHAS LEVI


Eliphas Levi Zahed é a tradução hebraica de Alphonse Louis Constant, nascido em Paris em 1810. Foi um seminarista católico e artista plástico que influenciou muitos outros estudiosos de seu tempo. Ele desenhou um Tarot com motivos da arte egípcia, mas apenas algumas dessas cartas foram divulgadas. Estabeleceu a relação dos 22 arcanos maiores com a 22 letras hebraicas e inspirou Papus e Falconier através da publicação de seu livro: “Dogna e Ritual de Alta Magia”, em 1854.


Levi afirmava ter encontrado uma peça de Tarot cunhada no Antigo Egito e disse sobre ela: “Essa clavícula considerada perdida durante séculos foi por nas recuperada e temos sido capazes de abrir os sepulcros do mundo antigo, de fazer os mortos falarem, de observar os monumentos do passado em todo seu esplendor, de entender enigmas de cada esfinge e de penetrar todos os santuários. Ora a chave em questão era esta: um alfabeto hieróglifo e numérico expressando por caracteres e números uma série de idéias universais e absolutas”, finaliza Levi.


PAPUS


Gerard Encausie (1865-1916), mais conhecido como Papus, foi um médico e ocultista francês, fundador da “Ordem Maçônica dos Martinistas”, além de escritor e conferencista.


É o autor do livro: “Tarot dos Boêmios”(1889), que até hoje em dia é muito valorizado e traduzido, inclusive no Brasil. Nessa obra estão os desenhos feitos pó Jean Gabriel Goulinat, sob sua orientação, que dão roupagens egípcias aos arcanos do Tarot. Nesse baralho é possível reconhecer as direções afirmadas por Levi e por Etteilla em relação aos arcanos maiores. As letras hebraicas também estão presentes. Trata-se de um Tarot europeu antigo adornado com figuras de inspiração egípcia. Para Papus, a sabedoria do Antigo Egito e da Índia estão sintetizadas no Tarot.


FALCONIER


René Falconier publicou em 1896 seu livro: “As 22 Lâminas Herméticas do Tarot Divinatório”. Segundo ele, os desenhos foram reconstituídos “de acordo com os textos sagrados e segundo a tradição dos magos do Antigo Egito”.


Falconier tentou fazer um Tarot totalmente egípcio, mas ele tinha pocu conhecimento de egiptologia, e para um bom observador, é fácil notar que suas cartas dificilmente tem origem egípcia. Anos depois, em 1901, surgiram os 56 arcanos menores associados ao trabalho de Falconier-Wergener, de autoria de Edgar Valcourt-Vermont, sob o pseudônimo de “Conde de Saint Germain”, em seu livro: “Astrologia Prática: método simples para calcular horóscopos”. O que foi mais um resultado sem sucesso, considerando-se a iconografia do Antigo Egito.


ALEISTER CROWLEY


Edward Alexander Crowley, mais conhecido como Aleister Crowley, nasceu na Inglaterra em 1875. Foi alpinista, enxadrista, caçador e um dos maiores ocultistas de todos os tempos, mas devido aos seus excessos e opiniões bizarras, tornou-se uma figura “maldita” para a maioria.


Pertenceu a ordem iniciática “Golden Dawn”, onde explorou seus dons naturais de mago e aprendeu as bases da tradição ocidental. Porém, devido ao seu grande potencial e ascensão rápida dentro da ordem, foi vítima de inveja de outros membros, o que causou sua saída da ordem. Foi nessa época que Crowley passou por uma experiência única no Egito: teve contato com uma entidade espiritual chamada Aivass, que lhe ditou um legado de conhecimento, levando-o a escrever o famoso “Livro da Lei”, que tratava das leis para a Nova Era. Esse fato marcou profundamente sua vida, tornando-o o profeta da Nova Era.


Em 1938, Crowley projetou o “Tarot de Thoth”, que foi pintado por Lady Frieda Harris, sob suas orientações. Ele foi publicado em cores apenas em 1971. O Tarot de Thoth é um baralho cheio de simbologia astrológica e cabalista, além de ser muito estilizado e exótico. Contém em seus desenhos símbolos de grandes segredos.


KIER


Nos séculos XIX e XX diversos tipos de Tarots egípcios foram produzidos e passaram a ser mais sofisticados em seus elementos egípcios, provavelmente devido às descobertas e publicações científicas sobre os hieróglifos e a religião egípcia.


O Tarot egípcio Kier tem esse nome por ter sido publicado pela Editorial Kier, da Argentina. Foi publicado pela primeira vez em 1955, em preto e branco, e posteriormente em 1971 na versão colorida. Ele tem uma vasta combinação de símbolos mitológicos e culturais egípcios, incluindo símbolos astrológicos, cabalistas e do alfabeto alquímico dos magos.