A Lenda de Hórus


Existem várias lendas sobre a origem do deus Hórus, mas há duas em particular que são mais conhecidas e difundidas. Em ambas ele possuía a forma de um falcão. A lenda não chegou até nós através de documentos egípcios, a não ser por fragmentos de textos, vinhetas e algumas cenas em tumbas, mas já relacionadas às histórias de algum personagem. Quem nos revela a lenda de Osíris é Plutarco, beócio da Queronéia (Grécia), nascido por volta da primeira metade do século I d.C. Essa lenda, mais que qualquer outra, exerceu uma enorme influência no espírito egípcio.


A primeira história conta que o deus Hórus era filho primogênito da deusa Hathor e era chamado de “O Distante”. Mais tarde ele tornou-se filho de Geb e Nut, o irmão de Ísis e Osíris. A lenda de Hórus, filho de Osíris e Ísis é uma das mais importantes de toda mitologia egípcia, pois faz parte da “tríade sagrada” (pai, mãe e filho). Hórus tornou-se um dos deuses de maior importância da vasta cosmologia egípcia.


Essa lenda conta na íntegra toda a vida do deus Hórus, desde seu primeiro nascimento no Céu (nascido do ventre de Nut) e posteriormente nascido de novo na Terra (nascido de Ísis). Nela consta a famosa batalha entre Hórus e Seth, que retrata a eterna batalha entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre o dia e a noite, entre a vida e a morte. É uma disputa que envolve todos os poderes do Universo, todos os deuses e deusas do Céu e da Terra. Na lenda de Hórus, constatamos as emoções mais primitivas, como o ciúme, a trapaça, a inveja, a sensualidade, a amargura, o amor puro, a fidelidade e a compaixão. Este mito representa a luta entre a fertilidade do vale do Nilo (Osíris) e a aridez do deserto (Seth).


Vejamos a seguir essa fascinante história na íntegra contada pela escritora e pesquisadora Jean Houston.



Hórus, o duas vezes nascido



No início dos tempos, Nut, a deusa do Céu, e Geb, o deus da Terra apaixonaram-se, e desse amor nasceram Rá, o deus do Sol e Thot, o deus da Lua.


Algum tempo depois, Nut engravidou novamente, despertando o ciúme feroz de Rá, que temia perder seu lugar como primogênito e herdeiro. Por ser o Sol quem determinava o dia e a noite, assim como a duração dos dias, meses e anos, Rá decidiu “parar” o tempo, para que seus irmãos (Nut esperava quíntuplos) não pudessem nascer e dessa forma, ele reinaria absoluto.


Muitas eras se passaram assim, e os pequenos bebês dentro do ventre de Nut cresceram, tornando-se adultos. Devido à essa razão, já tinham entendimento e sentimentos de pessoas adultas. Foi então que, ali mesmo, dentro da barriga de sua mãe, Osíris e Ísis se apaixonaram. O filósofo grego Plutarco nos conta que, antes mesmo de nascerem, Ísis e Osíris, enamorados um do outro, uniram-se dentro do ventre de Nut e dessa união nasceu Haroéris, conhecido como Hórus (ali mesmo dentro do ventre de Nut). Assim, esse deus seria filho de Ísis, nascido dentro do ventre de Nut a qual, por seu turno, deu-lhe à luz pela segunda vez. Desta maneira, Haroéris é filho de Nut e, portanto, irmão de Ísis e Osíris, ao mesmo tempo em que é filho de Ísis e Osíris.


Muitas eras se passaram assim, até que Thot, compadecido do sofrimento de sua mãe, usou um artifício contra Rá para enganá-lo: ele venceu Rá num jogo de damas e exigiu como prêmio cinco dias do ano, para que seus irmãos pudessem nascer E assim vieram ao mundo Osíris, Hórus, Seth, Ísis e Néftis, respectivamente. Primeiro nasceu Osíris.


Depois veio Hórus. Esse foi o primeiro nascimento de Hórus. Porém, assim que Hórus nasceu ele se agarrou ao ventre do Céu. Era um falcão de ouro, cujas garras nunca sentiram a Terra. Tinha olhos aguçados e uma visão ampla. Hórus voou até os confins do Universo e voltou. Das alturas, observava como se formavam as leis do Céu e da Terra, quão profunda era a noite, quão radiante o dia, quão fresca a sombra e quão belos o anoitecer e a aurora.


Seth nasceu revoltado contra a crueldade de Rá e jurou vingança. Seu ódio fez com que nascesse deformado e feio. Depois vieram Ísis e Néftis. Ísis casou-se com Osíris e Néftis casou-se com Seth. Os deuses ocultos decretaram que a Osíris, o primogênito, seriam dadas as terras negras (férteis) do Egito, situadas dos dois lados do Nilo. Era onde cresciam os grãos e pastavam os animais, onde se plantava e se colhia. Seth recebeu toda a terra vermelha, onde habitavam os cães selvagens, os javalis e os animais do deserto. Era o deserto, a morada dos beduínos.


Com inveja de Osíris, Seth jurou a si mesmo que tomaria o trono do irmão. Anos depois, durante a ausência de Ísis que havia viajado para realizar os partos das mulheres grávidas da região, Osíris, se sentindo muito triste e só, resolveu dar uma festa para comemorar os 28 anos da sua chegada ao Egito. Seth, sabendo disso, elaborou um plano: modelou uma bela caixa de cedro do tamanho de Osíris e revestiu-a com ouro e pedras preciosas. Ele conhecia uma rainha e feiticeira etíope chamada Aso e pediu a ela que lançasse um sortilégio maligno sobre a caixa. Ela então lançou o sortilégio da eternidade, do sono e do confinamento.


No meio da festa, Seth chegou acompanhado de 72 homens, companheiros de sua tribo no deserto. Osíris o abraçou e ficou contente em ver que Seth deixara de lado as divergências entre ambos. Seth trouxe então o seu “presente” e disse que daria aquele “troféu” ao homem que coubesse deitado em seu interior. Um a um, todos os convidados deitaram dentro da caixa, mas nenhum deles cabia nela com exatidão. Somente Osíris coube nela com perfeição. Aí então, os companheiros de Seth fecharam o esquife com Osíris dentro, soldaram as beiradas com chumbo e o lançaram no Nilo. Vitorioso, Seth voltou ao palácio e tomou posse do trono de Osíris.


Logo a notícia se espalhou pelo Egito, chegando aos ouvidos de Ísis. Esta, ao saber da morte do marido, enlouqueceu, e passou a perambular pelas ruas em desespero total. Depois resolveu sair em busca do corpo de Osíris. Durante semanas a fio ela percorreu o Egito perguntando a cada um que encontrava se havia visto o caixão de Osíris. Somente em Biblos, na costa da Síria, foi que algumas crianças disseram que haviam visto o caixão, mas que quando este tocou a terra, subitamente brotou uma tamargueira que prendeu em seu tronco a arca cravejada de jóias. Ísis então saiu em busca da árvore e finalmente a encontrou. Após muitos contratempos e dificuldades, ela conseguiu trazer o corpo de Osíris de volta ao Egito.


Inconsolável com a perda do homem amado, num momento de profundo desespero e desalento, Ísis resolve usar sua magia (pois Ísis era uma grande feiticeira) para tentar ressuscitar Osíris. E ela conseguiu, não por completo, mas de maneira suficiente para que, movida pela dor e pela emoção, transformou-se num falcão e uniu-se fisicamente ao marido, concebendo assim seu divino filho Hórus, a criança dourada. Quando tudo terminou, Ísis adormeceu sobre o esquife de Osíris. Ela então teve um sonho com o ovo azul do mundo, do qual nasceu um falcão de ouro, brilhante e de penas azuis, com asas enormes, que cobriam todo Egito. Sonhou com as pegadas do falcão na areia, na lama do rio, e com uma cobra subindo ao céu, presa nas garras do falcão. Os deuses colocaram uma dupla coroa sobre a cabeça do falcão. Ela então acordou, e sentiu a vida que pulsava dentro do seu ventre. Emocionada, Ísis disse: “ Eu sou Ísis, irmã e esposa de Osíris, mãe de um deus. Agora não sofro nem choro mais, pois carrego a semente de Osíris. Darei à luz a um deus, à criança que vingará o pai e compensará as tristezas da mãe. A criança em meu ventre não é outro senão Hórus, meu filho, meu irmão, aquele que mata os inimigos. Duas vezes nascido, emergiu outrora no Céu e agora na Terra. Será conhecido como “rei de ouro” no coração do povo. Enquanto viver, Osíris viverá! “


Ísis então ficou mais que nunca determinada a ressuscitar Osíris completamente. Mas para isso precisava de tempo para fazer sua magia agir totalmente e também da ajuda de um guardião para o corpo de Osíris enquanto não terminasse o ritual. Então ela escondeu o corpo numa caverna e saiu em busca de sua irmã Néftis e de seu sobrinho Anúbis para ajudá-la a proteger Osíris da fúria de Seth. Porém, naquela mesma noite, Seth caçava ali perto e com a ajuda dos cães selvagens do deserto que farejaram o cheiro do corpo, ele encontrou o esconderijo onde estava Osíris. Furioso, Seth percebeu que Osíris respirava, que estava vivo e adormecido. Transtornado de ódio, ele apunhalou Osíris no peito, causando sua segunda morte. Fora de si, Seth o golpeou várias vezes, esquartejando-o em 14 pedaços. Quando acabou, juntou todos os pedaços num saco de couro e atirou no Nilo.


O Nilo ficou vermelho com o sangue e os pedaços dos corpo foram levados pela correnteza, chegando depois às margens do rio. Todos, menos o falo, que foi devorado por um peixe. No instante da morte de Osíris, Ísis ouviu seu grito. Desesperada, correu ao local onde havia escondido o corpo do marido. Foi então que ela viu sua cabeça cortada nas margens do Nilo. Porém, Ísis não estava disposta a entregar Osíris para a morte. Com a ajuda de Néfits e Anúbis, ela escondeu a cabeça de Osíris numa caverna e saiu em busca das outras partes de seu corpo espalhadas ao longo do Nilo. Ela pretendia reunir os membros do corpo de Osíris e assim restaurar o reinado divino do marido através de sua magia.


Vinte e oito dias após ter encontrado e juntado todos os pedaços do corpo (menos o falo, que ela substituiu por um pedaço de cedro de ouro), Ísis iniciou seu ritual de magia e ressuscitou Osíris. Porém agora, ele não voltou a viver no mundo dos vivos, mas sim passou a governar e reinar no mundo dos mortos, o Duat. Osíris retornou ao reino dos mortos, mas já tinha deixado a sua semente em Ísis.


Hórus, filho de Osíris e Ísis



Tempos depois, nos pântanos do delta, num lugar chamado Chemnis, perto da cidade de Buto, Ísis deu à luz à Hórus, num campo de papiros. Esse foi o segundo nascimento de Hórus. Hórus foi criado ali, no campo de papiros, escondido de Seth, que o procurava para matá-lo e se apoderar em definitivo do trono do Egito. Esse foi o segundo nascimento de Hórus.


Embora a natureza inóspita desta região fosse segura, visto que Seth jamais se aventuraria por uma região tão desértica, a mesma comprometia sua subsistência, dada a escassez de alimentos característica daquele local. Para assegurar sua sobrevivência e a de seu filho, Ísis foi obrigada a mendigar, pelo que, todas as madrugadas, escondia Hórus entre os papiros e saía pelos campos, disfarçada de mendiga, afim de obter o tão necessário alimento.


Enquanto ela estava ausente, Hórus era amamentado pela vaca Hathor e protegido pelas deusas-serpente Wadjet e Renenutet, que se revezavam tomando conta dele. Hórus cresceu na companhia de 7 najas, 7 vacas e 7 escorpiões que o protegiam e o ensinavam sobre as coisas do mundo. Dois anos depois, Seth enviou um de seus espiões à cidade e conseguiu descobrir onde era o esconderijo de Hórus.


Então, numa manhã durante a ausência de Ísis, um escorpião entrou no berço de Hórus e o picou. Nesse instante, um falcão soltou um grito agudo no céu e depois caiu como uma pedra. Ísis teve um mau pressentimento e correu para ver o que houve com o filho. Chegando lá, encontrou Hórus rígido como uma pedra, sem respiração, com os olhos fechados e uma espuma branca saindo de sua boca. Ouvindo os lamentos de Ísis, a deusa-escorpião Selket foi até ela e disse: “Reze para Thot. A criança viverá enquanto o Sol permanecer no céu.”


Ísis então levantou os braços para o céu e pediu:” Thot, parai o tempo. Parai o Sol. Parai a Barca de Milhões de Anos”.


Dessa forma, Ísis rogava a Rá que suspendesse o seu percurso usual até que Hórus convalescesse integralmente. Compadecido com as suplicas de uma mãe, o deus solar ordenou assim a Thot que salvasse a criança.


Thoth então desceu do céu e ajoelhou-se ao lado de Ísis. Hórus não respirava e seu coração havia parado; ele jazia, inerte. Thot declarou então: “ Nada temas, Ísis! Venho até ti, armado do sopro vital que curará a criança. Coragem, Hórus! Aquele que habita o disco solar protege-te e a proteção de que gozas é eterna”.


Thot então sussurrou as palavras de poder para Ísis e ela as sussurrou no ouvido de Hórus. Instantes depois, ele voltava a respirar e abriu os olhos, pedindo água. Após haver banido, com a sua magia divina, o letal veneno que estava prestes a levar Hórus à morte, Thot pediu aos habitantes da região que velassem pela criança, sempre que a sua mãe tivesse necessidade de se ausentar. Muitos outros sortilégios se abateram sobre Hórus no decorrer da sua infância (males intestinais, febres inexplicáveis, mutilações), apenas para serem vencidos logo em seguida pelo poder da magia das sublimes divindades do panteão egípcio.


Por essa razão, as estelas (pedras com imagens) de Hórus eram consideradas curativas de mordeduras de serpentes e picadas de escorpião, comuns nestas regiões, dado representarem o deus na sua infância vencendo os crocodilos e os escorpiões e estrangulando as serpentes. Sorver a água que qualquer devotado lhe houvesse deixado sobre a cabeça, significava a obtenção da proteção que Ísis proporcionava ao filho. Nestas estelas surgia, frequentemente, o deus Bes, que mostra a língua aos maus espíritos. Os feitiços cobrem os lados externos das estelas. Encontramos nelas uma poderosa proteção, como salienta a famosa Estela de Mettenich: "Sobe veneno, vem e cai por terra. Hórus fala-te, aniquila-te, esmaga-te; tu não te levantas, tu cais, tu és fraco, tu não és forte; tu és cego, tu não vês; a tua cabeça cai para baixo e não se levanta mais, pois eu sou Hórus, o grande Mágico”. Quando Seth soube do milagre, amaldiçoou mãe e filho e voltou a persegui-los. Devido aos riscos que sua presença trazia ao filho, Ísis o deixou aos cuidados das amas de Buto. Hórus tinha cinco anos de idade. Hórus cresceu como o Sol nascente. Ele próprio era um grande falcão que cortava os céus.


Quando ela retornou para sua companhia, Hórus já havia se tornado um homem. As aventuras da deusa a levaram além da compreensão do filho. Através do sofrimento, ela havia se tornado uma mulher sábia, uma xamã. Já era hora de ensinar ao filho a verdadeira missão de sua alma. Ela então lhe ensinou os caminhos do guerreiro e o significado de ser herói, amante e mago. Ísis ensinou-lhe a magia, as palavras de poder, os nomes secretos dos deuses e mostrou-lhe todos os templos sagrados. Porém, por ser uma mulher, ela não tinha familiaridade com os caminhos do guerreiro. Então ensinou Hórus a entrar em contato com seu pai Osíris em sonhos. Através do plano psíquico e intuitivo, Hórus recebeu a benção do pai e sua orientação espiritual. Em sonho, Hórus soube da morte do pai e de como tudo aconteceu. Viu sua própria concepção mágica e pode sentir o dilaceramento do corpo do pai quando foi esquartejado por Seth.


Osíris então orientou o filho:” Erguei minha alma, Hórus. Espalhai a palavra da minha autoridade. Em meu nome, defende os portões do Amentet e não permita que Seth se aproxime de novo. Eu, Osíris, me manifesto e ressurjo através de vós. Eu me deterioro e cresço em vós. Eu me prostro e me levanto em vós. A partir de amanhã eu vos ensinarei a usar o arco, as flechas, a faca e a maça”. Osíris então voltou à Terra para fazer dele um guerreiro. Hórus era visitado freqüentemente por seu pai Osíris, que lhe ensinava tudo sobre Seth para que vingasse a sua morte.


Assim, Hórus passou parte de sua vida no deserto, longe da mãe e perto do pai. Durante o dia ele viajava para os mundos superiores como um falcão sobre a planície. À noite, descia em sonho para fazer o trabalho do pai. Finalmente, quando se tornou um guerreiro, Hórus pôde deixar o deserto e apareceu nas ruas de Hieracômpolis no esplendor da glória, preparado para a luta, os braços musculosos ornados com as braçadeiras douradas do guerreiro, o disco solar brilhando em sua cabeça. Hórus então passou a cuidar do povo, trazendo de volta a alegria e prosperidade a todos.


Hórus formou um exército ao qual se uniram muitos egípcios, todos seguidores fiéis a Osíris e partiu em busca de Seth para vingar a morte do pai. Os comparsas de Seth, que observavam os passos de Hórus de longe, ficaram cansados da vida no deserto e resolveram se juntar a Hórus, empunhando suas espadas a seu favor. Hórus, por sua vez, lhes ensinou a usar as armas de ferro, a lealdade do leão e a velocidade do cavalo. Tauret, a deusa-hipopótamo, que era concubina de Seth, assim que soube da beleza e virilidade de Hórus, decidiu procurá-lo e fazer dele seu marido, abandonando Seth. Essa foi a gota d’água para Seth, que já não se conformava por Hórus ter sobrevivido, crescido, exaltado o nome de Osíris, ter sido abandonado por seus comparsas e agora era abandonado por sua concubina por causa dele. Era demais. Seth, enfurecido, pôs a coroa de guerra e foi atrás de Hórus, armado com uma faca.


Porém, ao invés de lutar, Hórus levantou vôo na forma de um falcão e foi para o Céu, onde o Conselho dos Deuses estava reunido. Thot disse: “Chegou a hora. Que a justiça prevaleça sobre a força”. Hórus era herdeiro do reino terrestre do seu pai. Hórus então falou:” Meu pai está morto. É desejo dele que eu governe a Terra Negra, mas Seth roubou a terra fértil de meu pai. Venho em nome de minha mãe e de meu pai para receber a coroa de Osíris”.


Ao convocar o tribunal dos deuses, presidido por Rá, Hórus afirmou o seu desejo de que Seth deixasse, definitivamente, a regência do país, encontrando o apoio de Thot, deus da sabedoria, e de Shu, deus do ar. Todavia, Rá contestou-os, veementemente, alegando que a força devastadora de Seth, talvez lhe concedesse melhores aptidões para reinar, uma vez que somente ele fora capaz de dominar o caos, sob a forma da serpente Apópis, que invadia, durante a noite, a barca do deus- Sol, com o intuito de extinguir, para toda a eternidade, a luz do dia. Os deuses, porém, divergiram entre si sobre quem teria o direito ao reino do Egito: se Hórus, por ser filho e herdeiro de Osíris ou Seth, por ser filho de Nut, mãe de Osíris e Seth. Sendo assim, recorreram à própria Nut e ela respondeu: “ Daí a Terra Negra de Osíris a seu filho Hórus. Duplicai o tamanho da Terra Vermelha de Seth e lhe dêem duas outras concubinas para compensar a partida de Tauret: Anat e Astarte”.


Rá, porém, não concordou com a decisão da mãe e decidiu que Hórus e Seth deveriam disputar o reino numa batalha. Hórus então reuniu todos os fiéis a Osíris e partiu em busca de Seth para vingar a morte do pai.


A Batalha de Hórus e Seth



A luta entre Seth e Hórus foi longa e angustiante; uma briga que parecia não ter fim. Eles infligiram um ao outro feridas horríveis. Eles mudavam de forma e combatiam sem parar, como homens ou na forma de hipopótamos, leões, ursos, cobras e até criaturas míticas nunca vistas antes. E eles lutaram durante 80 anos. Depois de combates árduos, a última batalha aconteceu em Edfu.


Rá, que podia ver o futuro refletido nos olhos dos homens, olhando fixamente no olho de Hórus, viu o Grande Mar Verde, mas Seth estava observando Rá e se transformou em um grande javali, que passou por ele, distraindo-o. Nem Rá nem Hórus o reconheceram, e Seth, em sua forma animal, disparou um sopro de fogo nos olhos de Hórus, fazendo-o emitir um grande grito de dor. Nesse momento viu-se que o javali não era outro a não ser Seth. Rá foi até Hórus, que se recuperou da perda da visão e reuniu novamente um exército que iria lutar contra Seth. Na guerra houveram muitas batalhas mas a última e a maior foi em Edfú, onde se encontra o grande templo que recorda esse dia.


Seth e os seus fiéis transformaram-se nos mais terríveis e estranhos animais para vencer Hórus. Seth sugeriu que ele próprio e o seu adversário tomassem a forma de hipopótamos, com o intuito de verificar qual dos dois resistiria mais tempo, mantendo-se submersos dentro de água. Hórus, então, durante o combate, mutilou e esterelizou Seth. Ísis, angustiada com aquela batalha sem fim, resolveu ajudar seu filho . Quando Hórus e Seth lutavam no fundo do Nilo sob a forma de dois hipopótamos, ela atirou um arpão no local onde ambos haviam desaparecido. Porém, ao golpear Seth, este apelou aos laços de fraternidade que os uniam, coagindo Ísis a salvá-lo, logo em seguida.


E Seth gritou: “ Ísis, minha irmã, o que fizestes? Não te lembras mais do teu irmão? Tirai a vossa arma de mim!”. O coração de Ísis se compadeceu de aflição e amor pelo irmão, e ela puxou o arpão de volta, retirando-o. No fim, Seth estava prestes a sucumbir, quando Ísis interveio suplicando ao filho que desse fim ao massacre, pois afinal Seth era seu irmão e marido de sua irmã predileta, Néftis.


Ao ouvir a voz da mãe na margem, Hórus ficou furioso. Por que ela estava libertando Seth quando finalmente ele o tinha dominado e vencido?
Por que ela libertou o assassino de seu pai e usurpador do trono? Hórus então, num ímpeto de ódio e totalmente dominado pela fúria, saiu da água como uma pantera selvagem e correu atrás de sua mãe, que fugiu como uma gazela apavorada. Mas ele conseguiu apanhá-la e, erguendo sua faca num golpe certeiro, ele cortou fora a cabeça de sua mãe.


Nesse instante Hórus caiu em si sobre o que havia feito, e deixando cair a faca ensangüentada, fugiu para as montanhas perto de deserto, com a intenção de nunca mais voltar, pois não poderia encarar mais ninguém depois de cometer um crime tão cruel. Enquanto isso, Thot, que testemunhara tudo, correu em socorro de Ísis, e usando de sua magia e das palavras de poder, colocou sobre seus ombros uma cabeça de vaca.


O Olho de Hórus



Ao tomar conhecimento de tão hediondo ato, Rá, irado, vociferou que Hórus deveria ser encontrado e punido severamente. Prontamente, Seth ofereceu-se para capturá-lo. Seth seguiu Hórus até as montanhas e o encontrou adormecido no oásis, sob o luar, embaixo de uma árvore. Seth então, transformou-se num grande porco negro e arrancou o olho esquerdo de Hórus, jogando-o bem longe.E, assim, a Lua parou de iluminar.


O olho que Hórus perdeu (o olho esquerdo) é o olho da Lua, o outro é o olho do Sol. Esta é uma explicação dos egípcios para as fases da Lua, que seria o olho ferido de Hórus. A crença egípcia refere igualmente que, em memória desta disputa feroz, a Lua surge, constantemente, fragmentada, tal como se encontrava, antes que Hórus fosse curado.


Seu olho esquerdo foi então substituído por um amuleto que simbolizava proteção e poder. Hórus ofereceu um de seus olhos a seu pai, como símbolo de vida, retomando apenas um dos olhos para si mesmo. Ele dedicou o olho perdido a Osíris, passando a usar uma serpente sobre a cabeça para substituí-lo. Mais uma vez Thot veio em socorro de Hórus, encontrando o olho perdido e restituindo-lhe a visão. E então a Lua voltou a brilhar no Céu.


Hórus, já curado, foi para o Céu, na sala do Conselho dos Deuses. Seth já estava lá, bebendo vinho e sussurrando mentiras no ouvido de Rá. Hórus então disse: “ Seth arrancou meu olho, mas Thot me curou. Seth respondeu: “ É mentira! Nem me aproximei dele! Seth acusou Hórus de não ser filho de Osíris, tendo nascido depois da morte do pai. Hórus refutou da acusação, tachando Seth de má fé e o acusou pelo assassinato do pai.


Rá perdeu a paciência: “ Estou farto disso, das brigas intermináveis de vocês! Meus cabelos ficaram brancos por vossa causa. Fizestes de mim um velho! ”, e saiu cheio de raiva. Os outros deuses gritaram: “ A luta deve terminar. Vão para casa, comam e bebam juntos, façam uma festa só para vocês, mas deixem os deuses em paz!” Por fim os deuses decidiram que Hórus ficaria como rei do Baixo Egito e Seth como rei do Alto Egito. Seth sorriu e convidou Hórus para uma festa em sua casa para comemorar a divisão dos reinos. Foram embora juntos, como os deuses ordenaram.


Na festa, eles comeram e beberam. Depois, sonolentos e cansados, trocaram palavras generosas sobre como as Duas Terras poderiam viver. Seth disse que se quisessem conviver em harmonia, deveriam encarnar a terra dos dois reinos e dormirem um próximo ao outro, como a terra negra e a areia vermelha. Cansado demais para discordar, Hórus deitou-se perto de Seth e de costas para ele. Porém, no meio da noite Hórus acordou e viu que Seth tentava desonrá-lo. Hórus, embora precavido, não conseguiu impedir que um gota de esperma do seu rival tombasse em suas mãos. Desesperado, Hórus foi ao encontro de sua mãe, a fim de suplicar-lhe que o socorresse. Ficou extremamente surpreso ao encontrá-la com uma cabeça de vaca sobre os ombros. Pedindo perdão à mãe, ele encontrou e trouxe de volta a cabeça de Ísis e colocou-a sobre seus ombros. Deu-lhe de presente uma diadema reluzente com uma coroa de chifres, fazendo dela novamente a rainha do Céu e da Terra.


Partilhando do horror que inundava Hórus, Ísis decepou as mãos do filho,e arremessou-as de seguida à água, onde graças à magia suprema da deusa, elas desaparecem no lodo. Todavia, esta situação tornou-se insustentável para Hórus, que tomou então a resolução de recorrer ao auxílio do Senhor Universal, cuja extrema bondade o levou a compreender o sofrimento do deus- falcão e, por conseguinte, a ordenar ao deus- crocodilo Sobek, que resgatasse as mãos perdidas. Embora tal diligência tenha sido coroada de êxito, Hórus deparou-se com mais um imprevisto: as suas mãos tinham sido abençoadas por uma curiosa autonomia. Novamente evocado, Sobek é incumbido da tarefa de capturar as mãos que teimavam em desaparecer e levá-las até junto do Senhor Universal, que, para evitar o caos de mais uma querela, tomou a resolução de duplicá-las. O primeiro par é oferecido à cidade de Nekhen, sob a forma de uma relíquia, enquanto que o segundo é restituído a Hórus.


O Triunfo de Hórus



Na manhã seguinte, Seth convocou novamente o Conselho dos Deuses, exigindo uma decisão definitiva sobre quem ocuparia o trono de Osíris e pediu a Rá por uma última batalha contra Hórus. Rá, porém, não concordou, pois estava farto de lutas. Perguntou a Thot qual deus ainda não havia sido ouvido no conselho e ele lhe respondeu: “ Osíris. O trono é dele. Eles são seu filho e seu irmão. Deixe que Osíris decida”.


Rá propôs então que ambos revelassem aquilo que tinham para oferecer à Terra, de forma a que os deuses pudessem avaliar as suas aptidões para governar. Sem hesitar, Osíris alimentou os deuses com trigo e cevada, enquanto que Seth limitou-se a executar uma demonstração de força. Quando conquistou o apoio de Rá, Osíris persuadiu então os outros deuses dos poderes inerentes à sua posição, ao recordar que todos percorriam o horizonte ocidental, alcançando o seu reino, no culminar dos seus caminhos.


Osíris reafirmou sua importância e supremacia no mundo dos mortos, lembrando a Rá que sua própria barca solar só poderia navegar com a sua proteção, pois era ele, Osíris, quem a protegia dos monstros selvagens que queriam devorá-la no mundo subterrâneo. Também afirmou que Maat, a deusa da justiça, vivia lá com ele e era ele, Osíris, quem segurava a balança de Maat e pesava os corações dos mortos. Lembrou ainda que Geb, pai de ambos, determinou que ele, Osíris, prevaleceria até o final dos tempos. Até bem depois dos homens e dos deuses, e que esse era o seu julgamento final. Por fim, Osíris ameaçou mandar levantar todos os mortos se a justiça não fosse feita.


Então Rá e o tribunal dos deuses estabeleceram que a sucessão fosse hereditária, sentenciando que, na causa entre Seth e Osiris, seria Osiris quem deveria recuperar o reino que teve em vida, e acrescentou à sua coroa a parte do país que originalmente correspondeu ao seu irmão e assassino. Na longa e controversa vista da briga entre Seth e Hórus, que durou nada menos que oitenta anos, os juízes celestiais terminaram por sentenciar o pleito sobre os direitos sucessórios a favor de Hórus. O filho póstumo de Osíris recuperava o que lhe correspondia pela sua linhagem: a sucessão no trono de Egito. Assim, o filho era reconhecido pela divindade como soberano indiscutível.


Portanto, foi concedida finalmente ao deus- falcão a tão cobiçada herança, o que lhe valeu o título de “Hor-paneb-taui” ou “Horsamtaui/Horsomtus”, ou seja, “Hórus, senhor das Duas Terras”. Rá então tomou a decisão de deixar o comando do mundo, pois estava velho e cansado. Tomou Seth sob sua proteção e o encarregou de ficar na proa da barca solar quando essa penetrava nas águas escuras do Duat (reino dos mortos), matando as serpentes das trevas. Como compensação, Rá concedeu a Seth um lugar no céu, onde este poderia desfrutar da sua posição de deus das tempestades e trovões, que o permitia assustar os demais.


Rá deixou o comando do mundo de cima para Thot, o mundo de baixo nas mãos de Osíris e a Terra nas mãos de Hórus. Hórus tornou-se deus de todo o Egito, enquanto Seth era deus do deserto e dos povos estrangeiros. Hórus triunfou e sua recompensa foi o governo do Egito. Hórus foi triunfalmente proclamado o rei eterno e universal da terra.


Ísis foi designada rainha do Céu, do mundo subterrâneo (pois estava em comunhão com os deuses de cima e de baixo) e da Terra. Em tempos subseqüentes, de acordo com as representações encontradas no templo de Edfu, Hórus conquistou o mundo para Rá. Ele vencera o inimigo, que era nada mais, nada menos que Seth. Rá era basicamente o deus dos vivos, enquanto que Osíris era essencialmente o deus dos mortos. Posteriormente, Hórus deixou o governo aos reis míticos, denominados “Shemsu Hor”(companheiros de Hórus), segundo a tradição.


Assim, a profunda veneração que os egípcios dedicam a Hórus, só se iguala, ao terror que lhes inspira Seth. Como o pai, Hórus governou com sabedoria,e depois dele, reinaram seus descendentes, a começar por Menés, o faraó que inaugurou a I Dinastia.


Segundo Mâneto, sacerdote egípcio e historiador que viveu no século III a.C., tudo isso teria ocorrido 13.500 anos antes do primeiro faraó da primeira dinastia egípcia.


Este mito parece sintetizar e representar os antagonismos políticos vividos na era pré- dinástica, surgindo Hórus como deus tutelar do Baixo Egito e Seth, seu oponente, como protetor do Alto Egito, numa clara disputa pela supremacia política no território egípcio.